Precisamos falar sobre Brasil x Alemanha

“Marcela me amou durante 15 meses e 11 contos de réis”. Pego emprestada a sarcástica frase de Machado de Assis sobre o amor interesseiro retratado em Memórias Póstumas de Brás Cubas para tentar decifrar a relação de muitas pessoas com a Seleção. Há exatos 365 dias, a Alemanha aplicava 7 x 1 no Brasil na semifinal da Copa do Mundo, no Mineirão, fazendo desse jogo a pior exibição do Brasil em Copas.

Desde o começo da manhã, nas redes sociais, pipocam hashtags sobre o assunto, “comemorando” o aniversário da goleada e elas podem ser resumidas na frase “7 x 1 foi pouco”. Não foi pouco, mas a frase nos dá uma boa pista de como o brasileiro lida com a Seleção, com temas polêmicos e, por que não dizer, com o país como um todo. O traço distintivo dessa relação é o rancor e a vingança.

“O torcedor me amou durante 5 títulos, 102 jogos, 70 vitórias, 17 empates e 15 derrotas, com 220 gols marcados e 92 gols sofridos”, diria a Seleção se parafraseasse a citação de Machado de Assis sobre a amante interesseira. Brasileiro não gosta de esporte, gosta de vitórias brasileiras. Basta ver o que aconteceu com a audiência do basquete, do tênis e da Fórmula-1, três esportes onde tivemos desempenho de alto nível por algumas décadas.

Nélson Rodrigues, outro grande escritor brasileiro, cunhou uma expressão imortalizada pela crônica esportiva: “A Seleção é a pátria de chuteiras”. Um palpite certeiro de Rodrigues, pois a Seleção foi a válvula de escape dos brasileiros – seja de quem não gosta do país e não se importa com ele, seja de quem se orgulha de ser brasileiro, mas se sente impotente diante das inúmeras mazelas do país. Mazelas que são reunidas sob outra expressão renitente – corrupção.

Vamos a uma história rápida sobre a Alemanha, essa mesma que hoje desfila goleadas mundo afora. Na Eurocopa de 2004, num grupo com Letônia, Holanda e República Checa, os alemães caíram na primeira fase – com derrota para os checos e empates com os holandeses e letões. Após tamanho vexame, os dirigentes da Federação Alemã de Futebol se reuniram para descobrir o que tinha dado errado. Os clubes investiram nas categorias de base e havia um olheiro da Federação em cada clube.

O resultado não tardaria a acontecer. Jogando em casa na Copa de 2006, com um time renovado – Lehmann, Laham, Ozil, Khedira, Podolski e Muller já estavam nesse time – a seleção alemã obteria um ótimo terceiro lugar. Em 2010, na África do Sul, outro terceiro lugar após a derrota na semifinal para a Espanha.

A consagração viria no Brasil com mais alguns jovens: Neuer, Boateng, Gotze, Reus, entre outros. Claro que o investimento na base, a divisão equânime de recursos de TV entre os times e ingressos acessíveis (que resultam em estádios lotados), ajudam a entender como foi possível a recuperação do futebol alemão em menos de uma década. Mas o ponto fundamental foi o desejo e a tomada de atitudes para que o futebol alemão se reerguesse.

Um ano depois do 7 x 1 quase nada mudou. Fora a prisão de José Maria Marin – envolvido no escândalo de corrupção da FIFA pela venda da sede da Copa de 2022 ao Catar, pouco aconteceu, de fato. Desconfio que as hashtags rancorosas são mais causa do que consequência da letargia que assola o futebol – e a sociedade brasileira como um todo.

Tomo aqui emprestada a tese do colega David Butter, comentarista do Globo.com: o futebol brasileiro vive de mitos fundadores. Dois homens fortes atrás, dois laterais que apoiam mas marcam mal, o volante cão-de-guarda, o camisa 10 clássico, o segundo atacante que volta buscar jogo e o 9 fazedor de gols ainda que um tanto sem técnica. Quão risíveis são essas categorias hoje?

Como esse não é um texto de análise futebolística, deixo essa análise tática do Brasil x Alemanha feita por Eduardo Cecconi e retomo o cerne da questão: o que foi feito de prático sobre o futebol brasileiro após 2014? Nada sobre trazer um técnico estrangeiro para aproximar o futebol brasileiro do futebol jogado em outras praças. Nem sobre adequar o calendário ao resto do mundo de modo a evitar a debandada de jogadores em julho. Menos ainda sobre revitalizar estaduais e séries menores do Brasileiro para ajudar os times pequenos – grande celeiro de craques no passado.

Isso para não falar nas categorias de base. Fora o Internacional, Atlético-PR, Santos, São Paulo, Cruzeiro, Atlético-MG, Bahia e Vitória, não há trabalho sério na base. Mesmo o Corinthians, sete vezes campeão da Copa São Paulo de Futebol Júnior, tem usado muito menos a sua base. Na semana seguinte ao 7 x 1, poupado do massacre alemão pela joelhada de Zuñiga, admitiu: “Aprendi mais com meu pai do que com os treinadores das categorias de baixo. Pouco se treina os fundamentos, tática e posicionamento”, disse o craque.

São temas espinhosos e difíceis de lidar. Obviamente que é mais fácil ser rancoroso, dizer que “7 x 1 foi pouco” e dizer que torce contra o “time da CBF”. Ou que prefere a seleção argentina do que torcer para a “SeleNike”. Pergunto: quantos argentinos diriam algo semelhante? Lembremos que o último título argentino é a Copa América de 1991. Assim como o último título uruguaio numa Libertadores data de 1988, com o Nacional. Os ingleses, por sua vez, estão fora de uma semifinal relevante desde a Eurocopa-1996. Uma seca imensa, nos três casos.

Parece que o brasileiro só se identifica com a Seleção quando ela ganha. O time canarinho funciona como uma projeção daquilo que gostaríamos de ser. É fácil dizer que o torcedor argentino é apaixonado, mas é duro imitar a sua postura de cantar os 90 minutos. Quando a Seleção perde, ela funciona como uma catarse negativa, gerando um afastamento. “Eles perderam”. Assim como gostaríamos de nos afastar do país sem educação decente, sem saneamento em 52% dos lares e com uma taxa de homicídios de 50 mil mortos ao ano – o mesmo tanto de mortos na guerra do Vietnã.

Qual é a nossa proposta de futebol? Os italianos defendem a todo custo e jogam por uma bola. A Espanha, traumatizada por tantos fracassos, descobriu que prender a bola é um bom jeito de não tomar gol. A Holanda aposta num esquema tático só deles, o 3-4-3. A Alemanha pretende dominar o jogo a partir do controle do meio de campo. E o Brasil? O que pretende quando tem (e quando não tem) a bola nos pés?

Desconfio que a solução esteja mais perto do que a gente imagina: na Argentina. Um campeonato similar ao nosso, o mesmo perfil de exportação de craques e, nos dias de hoje, o mesmo molde de seleção. A safra brasileira não é brilhante, mas está longe de ser ruim. Assim como é a atual safra argentina. Que tal fazer como eles e montar um bom time para gravitar em torno de uma estrela fora do normal? No caso deles, Messi. No caso brasileiro, Neymar.

A Argentina sempre soube lidar com a escassez de craques sem deixar de ser competitiva. Com exceção de 1978, onde o conjunto era forte, a Argentina fez bom papel quando dispôs de um gênio (Maradona ou Messi) circundados por um time decente. Talvez seja hora do Brasil fazer o mesmo, ser sensato e modesto e admitir que o tempo no qual “nascia um craque por dia” acabou.

Com exceção da Copa de 1938, na qual foi eliminada nas oitavas-de-final, a Alemanha sempre esteve entre os oito primeiros de uma Copa. De 1954 em diante, são 16 participações com 12 delas figurando entre os quatro primeiros, com quatro títulos e quatro vice-campeonatos. A seleção mais regular da história é a Alemanha. É hora de encarar essa realidade. Ironia e rancor não resolverão isso, precisamos de mais compromisso – seja com a Seleção, seja com o País. Os alemães souberam se reconstruir. Ficaremos apenas com as piadas ou vamos reconstruir nossa seleção?

Charles

Jornalista desde 2001. Já cobriu Economia, Meio Ambiente e Tecnologia, com passagem pela Agência USP de Notícias, jornal DCI, MSN, UOL e Yahoo. Já foi correspondente internacional do site Opera Mundi. Mestre em Jornalismo pela USP, dá aula sobre Informação e Novas Mídias na ECA/USP e é fascinado pelas novidades que aparecem na internet.

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