Malafaia, Boechat e a rola

Nesta sexta-feira, um vídeo do apresentador Ricardo Boechat, da Bandeirantes, sacudiu a Internet brasileira. Nele, Boechat responde ao deputado e pastor evangélico Silas Malafaia. Malafaia havia dito que Boechat “incitava ódio” contra o segmento evangélico. No vídeo-resposta, Boechat solta quatro minutos de impropérios contra Malafaia, numa catarse que lavou a alma de muitos críticos do fundamentalismo cristão – uma onda crescente no Brasil.

Tomador do dinheiro alheio, falso pastor, charlatão, mentiroso, homofóbico, explorador do suor alheio, foram algumas das expressões usadas por Boechat. Nenhuma delas é falsa, é forçoso notar. No entanto, a palavra mais repercutida na fala do apresentador da Bandeirantes foi rola. A patrulha do discurso politicamente correto (aqui uso essa expressão no sentido mais literal possível), tachou Boechat de homofóbico, patriarcal, machista e etc.

Sobre o comentário de Boechat, duas pequenas notas: A primeira delas é sobre a natureza dele. Foi um impulso, uma explosão. Até por isso, o comentário perde em racionalidade. Foi um desabafo, uma catarse, um basta contra tudo aquilo que Malafaia, Marco Feliciano, Jair Bolsonaro e seus assemelhados representam.

É ilusão achar que fundamentalistas leem o mundo sob a égide da racionalidade. Infelizmente, isso não é verdade e gera um dilema. Se enfrentamos Malafaia com a mesma virulência com a qual eles atacam o Estado laico e outros direitos fundamentais, seremos tachados de preconceituosos. Se usamos de discurso racional e brando, seremos acusados de acadelamento e covardia diante do fundamentalismo religioso – muitas vezes, por essa mesma esquerda politicamente correta.

Desse modo, não faz muito sentido analisar a resposta de Boechat nos limites da racionalidade estrita. O que aconteceu ali foi a vazão de uma revolta há muito entalada na garganta de um segmento considerável da população. Lidemos com o fato de que não somos racionais 100% do tempo e convivamos com o pequeno monstro que coabita dentro de nós.

Isso demonstra uma notável incapacidade da esquerda politicamente correta em saber que cada situação mostra um cenário diverso. Assim, cada adversário demanda uma atitude, uma resposta. Cada resposta tem um alvo certo, um momento certo, um discurso certo. É irônico notar que a dificuldade em lidar com contextos diversos, seria, supostamente, uma postura conservadora.

Um segundo aspecto da briga entre Malafaia e Boechat é sobre a rola, a palavra em si usada por Boechat para atacar o pastor. Malafaia não é notadamente homofóbico? Oras, o âncora da Band News FM foi figadal ao atacar o líder religioso em seu ponto mais fraco, a saber, a perseguição aos direitos dos LGBT. Mais uma prova que o discurso de Boechat é menos um líbelo racional e mais um sinal de cansaço diante dessa postura preconceituosa.

No entanto, parece que não é apenas Malafaia quem tem dificuldades em lidar com a rola. Muitos só escutaram na fala o falo. É preocupante pensar que os radicais dos dois lados (sejam evangélicos ou politicamente corretos) sejam tão obcecados com a rola, pau, pinto, piroca, trolha, pica, trabuco, seja lá qual nome ou apelido se dê para o pênis. Não sabemos lidar com a rola – e nem com a vagina, seu equivalente feminino – vide a censura do Facebook ao quadro “A origem do mundo”.

A despeito de todo um discurso liberalizante sobre a sexualidade, alguns setores da esquerda também querem normatizar o discurso sobre o sexo. Nietzsche estava correto quando alertou: “Ao lutar com monstros, cuidemos para que não nos tornemos também monstruosos”. Um pouco de bom senso bastaria para que notássemos que não há viés homofóbico na fala de Boechat. Pouparia a tinta nessas linhas de texto.

Isso nos leva a um ponto importante, o único aspecto realmente relevante em toda essa discussão: quando foi que o discurso se tornou mais importante que a luta efetiva por uma causa? Já antecipo a crítica: é óbvio que discursos são importantes, reveladores e que constroem o mundo – afinal de contas, sou jornalista e sei bem disso.

Porém, alguns segmentos da sociedade (entre eles, a Academia) desde os anos 1980, estiveram por demais envolvidos com algumas ideias do pós-modernismo. Segundo essa maneira de analisar o mundo, o âmbito da discussão progressistas x conservadores (ou esquerda x direita), teria se deslocado do campo da Política para o campo da Cultura (e o terreno de batalha onde a guerra se desenrolaria seria justamente a linguagem).

Deixo a leitura de um artigo do portal norte-americano Vox.com, onde um professor universitário norte-americano relata como há cada vez mais medo entre os docentes nos EUA de ferir a suscetibilidade emocional dos alunos, sob pena de serem denunciados e perderem seus empregos.

Entre preservar o discurso e tomar uma atitude, Boechat preferiu a segunda opção. Será que a defesa do discurso politicamente correto não é apenas fuga daquilo que precisa ser feito? Ou seja, o enfrentamento político da intolerância religiosa, contra os direitos dos LGBT, contra os direitos das mulheres e uma miríade de outras conquistas do Estado Moderno. Não há de ser uma expressão chula que vai desautorizar a atitude de Boechat diante de Malafaia.

Charles

Jornalista desde 2001. Já cobriu Economia, Meio Ambiente e Tecnologia, com passagem pela Agência USP de Notícias, jornal DCI, MSN, UOL e Yahoo. Já foi correspondente internacional do site Opera Mundi. Mestre em Jornalismo pela USP, dá aula sobre Informação e Novas Mídias na ECA/USP e é fascinado pelas novidades que aparecem na internet.

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